22/03/2026 - Estudo detalha sintomas neuropsiquiátricos e mecanismos biológicos da Covid longa
| Agência de Notícias do Governo do Estado de São Paulo
Estima-se que no Brasil quase 14 milhões tenham a condição crônica; revisão aponta a necessidade de padronizar diagnóstico de tratamento

A Covid longa tem mais de 200 sintomas, como fadiga, falta de ar e questões neuropsiquiátricas, que vão de disfunção cognitiva, distúrbios do sono e depressão até a perda de memória.
Quase três anos após a pandemia por SARS-CoV-2 ter sido oficialmente declarada encerrada, estimativas conservadoras apontam que entre 80 milhões e 400 milhões de pessoas no mundo têm Covid longa. Essa condição crônica associada à infecção está ligada a mais de 200 sintomas, como fadiga e falta de ar, mas especialmente a questões neuropsiquiátricas, que vão de disfunção cognitiva, distúrbios do sono e depressão até a perda de memória, com impacto na qualidade de vida, dificultando a realização de tarefas do dia a dia e o desempenho laboral.
Entre os mecanismos fisiopatológicos subjacentes (que ocorrem no organismo e ajudam a explicar determinados sintomas e alterações) estão: persistência viral do SARS-CoV-2, reativação do herpesvírus (quando o estresse imunológico permite que vírus latentes da família Herpesviridae se tornem ativos) e ativação imune crônica. Também incluem desregulação do sistema imunológico, desequilíbrio da função dos microrganismos no intestino (disbiose da microbiota), anormalidades de coagulação e dano endotelial. Em relação ao cérebro, há alterações estruturais e conectividade funcional anormal.
Porém, para avançar significativamente na compreensão da Covid longa, ainda é necessário realizar mais estudos científicos visando padronizar as definições e a nomenclatura usadas para o distúrbio, além de um número maior de ensaios clínicos com potenciais terapias.
Esse panorama está descrito no primeiro artigo de revisão publicado pela revista Nature Reviews Disease Primers dedicado às manifestações neurológicas, psicológicas e psiquiátricas associadas à Covid-19. O trabalho traz uma análise abrangente sobre epidemiologia, mecanismos biológicos, diagnóstico e abordagens terapêuticas, além do impacto na qualidade de vida e dos desafios para a ciência.
Desenvolvido por um painel internacional de 14 especialistas, o artigo tem entre os autores uma única brasileira, a professora e neurologista Clarissa Yasuda, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Ela é pesquisadora do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (Brainn), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fapesp, onde coordena desde 2020 uma série de estudos sobre Covid longa.
“Essa doença é nova e pouco conhecida. Tem muita gente estudando e tentando entendê-la não só pelos casos atuais, mas também porque a humanidade é suscetível a outros vírus que podem causar problemas da magnitude dessa pandemia. Precisamos aprender com ela e investigar de maneira efetiva e rápida. A Covid longa atrapalha muito a vida das pessoas e, no momento, não há tratamento específico. O importante é tomar as vacinas e evitar reinfecções. Essa é outra mensagem do artigo”, diz Yasuda à Agência Fapesp.
No trabalho, os pesquisadores frisam que a única prevenção à Covid longa até agora é evitar a infecção por SARS-CoV-2. Destacam que o diagnóstico é baseado na avaliação clínica. Sem biomarcadores disponíveis, requer histórico recente de contaminação pelo vírus, além de sintomas persistentes ou recorrentes por pelo menos três meses. Outras condições devem ser descartadas, o que pode exigir exames de sangue e de imagem, eletrocardiografia e ecocardiografia.
No Brasil, o número de casos de Covid-19 vem caindo ano a ano, mas ainda está em patamar alto – em 2025, segundo o Ministério da Saúde, foram notificados cerca de 432,4 mil casos, ante 984 mil no ano anterior. Entre janeiro e a segunda semana de fevereiro deste ano foram cerca de 25.200 registros.
